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Viver Sob o Mar: sonho ou realidade?

Todos nós já assistimos a filmes de ficção científica em que homens e mulheres vivem em cidades submarinas. O que poucos sabem é que viver sob o mar não é uma ficção tão absurda quanto parece e que desde 1962 centenas de pessoas moraram por períodos de até 60 dias debaixo d´água.

Tudo começou em 1942. A cada dia aumentava a necessidade de se trabalhar em profundidades cada vez maiores mas, embora já fosse possível contornar o problema da narcose através da utilização de misturas com hélio, o homem esbarrava em um problema aparentemente sem solução: as intermináveis descompressões ao final de cada mergulho.

Para cada minuto debaixo d´água, era preciso ficar horas em uma câmara de descompressão, o que inviabilizava trabalhos mais longos. Foi aí que os cientistas perceberam que após um período de 24 a 36 horas o corpo humano para de absorver gás inerte, atingindo um estado de "saturação". É como um copo com água em que você tenta colocar açúcar: após uma determinada quantidade, não interessa o quanto você mexe, o açúcar não se dissolve mais. A grande descoberta foi notar que, a partir do momento em que a saturação é atingida, o tempo de descompressão não aumenta mais.

Bastaria então encontrar uma forma de manter os mergulhadores na pressão (leia-se profundidade) de trabalho durante todo o período necessário para a execução das tarefas desejadas e então descomprimi-los uma única vez.

Por que não construir uma casa ou "habitat" no fundo do mar ao lado do local de trabalho, da qual os mergulhadores pudessem entrar e sair livremente, 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem ter que se preocupar com a descompressão a não ser no final do período de saturação, como um "canteiro de obras submarino" ?

Dr. Bond e o projeto Genesis

Em 1953 o mergulho de saturação era apenas uma teoria quando George F. Bond, um médico de uma pequena cidade do interior dos EUA foi recrutado pelo exército e transferido para a marinha para transformar-se no "pai do mergulho de saturação".

Em 1957 o Dr. Bond convenceu a marinha americana a iniciar o projeto Genesis, com a finalidade de "expandir a habilidade do homem para utilizar os produtos da biosfera marinha que constitui quase três quartos da superfície da nossa Terra". Durante cinco anos ele conduziu experimentos com ratos, cabras e macacos até que em em 1962 recebeu autorização para estudar o efeito da saturação em seres humanos.

No primeiro teste três homens permaneceram durante 6 dias em uma pequena câmara na superfície, respirando uma mistura de hélio e oxigênio a pressão atmosférica. No final de 1963 o Dr. Bond estava pronto para a última etapa do projeto Genesis: provar que o homem poderia viver 12 dias em saturação, respirando uma mistura de hélio, oxigênio e nitrogênio a uma pressão equivalente a profundidade de 60 m. A experiência foi um sucesso e o Dr. Bond havia aberto o caminho para que o homem pudesse viver sob o mar. Satisfeita com os resultados, a marinha autorizou o Dr. Bond a continuar os testes, mas desta vez debaixo d´água; nascia então o projeto Sealab.

A corrida dos anos 60

Enquanto o Dr. Bond continuava seus testes em terra, pelo menos dois grupos acompanhavam seu trabalho com grande interesse. Edwin Link, um visionário que ficou famoso ao inventar o simulador de vôo para treinar pilotos, havia voltado sua atenção para a arqueologia marinha e, frustrado com as limitações de tempo de fundo, conseguiu o apoio do Instituto Smithsoniano e da National Geographic Society para iniciar testes baseados nas experiências de Bond.

Em 1962, Link (aos 58 anos) passou 8 horas a 18 m em um pequeno cilindro que servia também como câmara de descompressão. Com o sucesso deste teste, ele deu início ao programa Man-In-The-Sea I e em setembro do mesmo ano o mergulhador Robert Stenuit passou 24 horas a 61 m de profundidade, realizando excursões de trabalho a até 74 m, antes mesmo que a equipe de Bond colocasse os pés na água pela primeira vez. Havia sido dada a largada para a corrida pela conquista do fundo do mar.

Do outro lado do mundo um francês acompanhava os testes dos americanos: Jacques-Yves Cousteau. Utilizando basicamente os mesmos conceitos de Link, quatro dias depois do mergulho de Stenuit, Cousteau lançava ao mar o seu Conshelf I, também conhecido como Diogenes. Com 5.2 metros de comprimento e 2.4 de diâmetro, o Conshelf I podia abrigar dois mergulhadores e foi instalado a uma profundidade de 10m. Albert Falco e Claude Wesly moraram 7 dias neste habitat, realizando mergulhos de trabalho a quase 55 m de profundidade e com até 5 horas de duração.

Mas o Conshelf I estava longe do sonho de Cousteau: construir uma verdadeira cidade submersa. Em junho de 1963 o sonho se tornou realidade com o início do Conshelf II, uma verdadeira vila submarina. Durante quatro semanas, 5 homens e um papagaio viveram a 11 m de profundidade na Starfish House que levava este nome devido a sua forma de estrela do mar. Com mais de 10 m de diâmetro, a Starfish House oferecia todas as amenidades de uma casa e foi o cenário de algumas das mais impressionantes imagens já feitas debaixo d´água.

Simultaneamente, 2 aquanautas se instalaram em um segundo habitat, colocado a 27 m de profundidade. Respirando uma mistura de hélio e oxigênio, eles realizaram mergulhos a até 110 m. Uma garagem para o submersível DS-2 e um depósito de ferramentas completavam a vila. Madame Cousteau passou quatro dias na Starfish House (tornando-se a primeira aquanauta da história) e o longa-metragem "O Mundo Sem Sol", produzido durante o projeto, é um clássico imperdível; quem assiste e não conhece a história real pode até achar que se trata de um filme de ficção-científica dos anos 60.

 

De volta ao outro lado do Atlântico, Edwin Link continuava seus testes e em 1964 iniciou o Man-In-The-Sea II instalando um habitat a 131 m, onde dois aquanatutas viveram por 48 horas.

Lenta mas continuamente, a marinha americana e o Dr. Bond continuavam suas experiências e ainda em 1964 lançaram o Selab I ao mar. Com 12 m de comprimento e formato de charuto, o habitat foi colocado a 58 m de profundidade e serviu de casa para quatro homens por 11 dias.

O sucesso destes experimentos foi suficiente para provar que o homem podia viver sob o mar. O resto é história: nos 13 anos seguintes, impulsionados pela corrida espacial, por interesses comerciais e pelas pesquisas científicas, 17 países construíram mais de 60 habitats submarinos.

Os anos dourados (1965-1977)

Os anos entre 1965 e 1977 podem ser considerados os "anos dourados" dos habitats. Viver sob o mar tornou-se um fato comum entre os militares.

Procurando encontrar formas de aumentar a eficiência de seus mergulhadores em operações de resgate e salvatagem em águas profundas, em 1965 a marinha americana lançou o Sealab II a 62 m de profundidade na costa da Califórnia. Com 17 m de comprimento, o Sealab II serviu de abrigo para três equipes de 10 aquanautas; cada equipe permaneceu saturada por 14 dias. Um dos membros da primeira equipe era o aquanauta/astronauta Scott Carpenter que, além de permanecer por quatro semanas no habitat (ele também pertencia ao segundo time), foi responsável por uma das façanhas de marketing do projeto, ao comunicar-se via rádio com seu colega astronauta Gordon Cooper, que orbitava a Terra a 350 km de altura a bordo de uma nave Gemini.

Os aquanautas trabalhavam cerca de 20 horas por dia realizando todo o tipo de experimentos, de medicina hiperbárica a testes de equipamentos de mergulho, passando por experiências como a utilização de golfinhos para o resgate de mergulhadores.

Exatamente no mesmo período em que o Sealab II estava em operação, Cousteau lançava no Mediterrâneo o seu Conshelf III. Ele havia voltado sua atenção para as aplicações comerciais do mergulho e desta vez montou um habitat em forma de esfera para 6 homens a 100 m de profundidade. Durante 22 dias os aquanautas conviveram com problemas de temperatura, infiltração de hélio em equipamentos eletrônicos, componentes defeituosos e mau tempo mas, depois de 84 horas de descompressão, encerraram com sucesso a missão. No final Cousteau declarou em uma entrevista que o Conshelf II foi "um épico sobre o triunfo dos homens e as falhas das máquinas"...

Em 1968 foram construídos nada menos que 14 habitats e em 1969 a marinha americana estava pronta para seu maior desafio, o Sealab III. O objetivo era continuar os experimentos do Sealab II mas desta vez a uma profundidade de 186 m. Infelizmente, uma falha na preparação do rebreather (equipamento de circuito fechado) do mergulhador Barry Cannon causou a sua morte no mergulho inicial de preparação do habitat. O acidente pôs um ponto final no projeto Sealab III antes mesmo deste ter sido tripulado e também em todo programa de habitats da marinha americana.

Paralelamente, a NASA estava interessada em analisar os problemas associados às longas permanências do homem no espaço e, em conjunto com a marinha e com a GE deu início ao projeto Tektite, lançado em 1969. O habitat era muito mais confortável que seus antecessores e no primeiro experimento, quatro aquanautas permaneceram saturados a 13 m durante 60 dias. Durante os meses seguintes, o Tektite serviu de casa por períodos de 2 a 4 semanas para 53 cientistas realizando pesquisas em campos que iam do comportamento humano a biologia marinha. Entre as várias tripulações estava a primeira equipe composta exclusivamente por mulheres.

Em 1972 o governo de Porto Rico, em conjunto com a Marine Resources Development Foundation (MRDF) lançou o La Chalupa, um dos mais sofisticados habitats construídos até hoje. Com dois compartimentos de 6 m de comprimento montados em uma barcaça, o La Chalupa possuía grande mobilidade. Podia ser utilizado a até 30 m de profundidade e era capaz de operar de forma praticamente autônoma com o apoio apenas de uma bóia. Entre 1972 e 1974, ele abrigou 42 cientistas em 9 missões.

Declínio

Com o fim dos projetos da marinha americana após o acidente do Sealab III e com as empresas de mergulho comercial optando por construir câmaras de vida na superfície ao invés de habitats submersos para seus mergulhadores de saturação, o interesse na vida debaixo d´água diminuiu gradativamente até que em 1977 foi construído o último habitat da era de ouro.

Foram necessários dez anos para que o homem voltasse a construir uma "casa submarina". Em 1987 a National Oceanic and Athmospheric Administration (NOAA, EUA) construiu o Aquarius, um habitat dedicado a pesquisas científicas em operação até hoje. Na era da informática, você pode até acompanhar as missões do Aquarius em http://www.uncwil.edu/nurc/Aquarius/index.htm, onde algumas webcams mostram o dia-a-dia dos cientistas.

Além do Aquarius, apenas um outro habitat está em operação atualmente. O La Chalupa teria sido aposentado como os outros habitats como os outros se ele não tivesse sido comprado, reformado e relançado em 1986, desta vez como um hotel submarino. Rebatizado de Jules Undersea Lodge, ele é o único habitat disponível para uso por mergulhadores amadores. Por US$ 325 por pessoa por dia, você pode passar quanto tempo quiser a pouco menos de 10 m de profundidade com todo o conforto de um hotel, incluindo banho quente, café da manhã no quarto, ar condicionado, vídeo cassete e, é claro, mergulho 24 horas por dia - literalmente na porta do seu quarto. Para saber mais sobre o Jules, procure a Scuba número 15 em sua estante ou navegue pela internet para http://www.jul.com. Um terceiro habitat, o Marinelab, está instalado ao lado do Jules e pode ser colocado em operação quando necessário.

 


O Futuro

Existem diversos projetos "engavetados" para construção de novos habitats, inclusive no Brasil. Eles vão desde pequenos abrigos para cientistas até hotéis para mais de 100 pessoas. Infelizmente, nenhum deles parece ter condições financeiras adequadas para sair da prancheta e ir para a água. Mas, da mesma forma que o homem chegou na Lua a 30 anos atrás, ele pode voltar para o mar na hora que quiser.

© 1999 Pedro Paulo A. C. Cunha (Texto). Todos os direitos reservados.
Artigo publicado sob autorização na revista
Scuba número 35 (novembro de 1999).

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